Regulamento da IA: Tem Mesmo de Identificar o Conteúdo Gerado por IA?
O Regulamento da IA é mais estreito do que dizem. O que obriga, a quem se aplica, e a isenção em que quase todas as empresas cabem.
Pergunte por aí e vai ouvir que a lei europeia agora obriga a assinalar tudo o que escrever com ajuda de inteligência artificial. Há agências a vender serviços de conformidade com base nisso.
Não é o que o Regulamento da IA diz. As regras existem, aplicam-se, e são bastante mais estreitas do que o alarme faz crer. A maior parte do que a sua empresa publica não está abrangida, e a razão está escrita no próprio texto.
Não somos juristas e isto não é aconselhamento jurídico. O que se segue é o regulamento citado diretamente, para poder ler a redação e decidir o que se aplica ao seu caso.
Tenho de identificar conteúdo gerado por IA?
Na maioria das situações de empresa, não. A obrigação de marcar recai sobre quem constrói os sistemas, não sobre quem os usa. O dever de avisar o leitor aplica-se a deep fakes e a texto publicado para informar o público sobre questões de interesse público. Conteúdo que passou por revisão humana e tem alguém responsável está expressamente excluído.
A quem é que as regras se aplicam
O regulamento divide a responsabilidade por dois papéis, e quase toda a confusão sobre este tema vem de os trocar.
Prestadores são as empresas que constroem e fornecem os sistemas de IA. OpenAI, Google, Anthropic, Mistral.
Responsáveis pela implantação são todos os que usam esses sistemas no seu trabalho. É você, e somos nós.
A maior parte das obrigações de marcação fica do lado dos prestadores. As obrigações de divulgação que recaem sobre quem usa estão limitadas a situações concretas.
O que os prestadores têm de fazer
Duas coisas interessam-lhe, mesmo não sendo trabalho seu.
A primeira é que as pessoas saibam quando estão a falar com uma máquina. Os prestadores têm de conceber os sistemas destinados a interagir diretamente com pessoas de modo a que estas percebam que estão perante um sistema de IA, exceto quando isso for óbvio para alguém razoavelmente atento e informado.
Essa ressalva vale alguma coisa. Se o chatbot do seu site é manifestamente um chatbot, não é obrigada a pôr lá um aviso.
A segunda é a marcação invisível. Os prestadores de sistemas que geram conteúdos de áudio, imagem, vídeo ou texto sintéticos têm de garantir que o resultado fica marcado num formato legível por máquina e detetável como artificialmente gerado.
Isto já acontece. O SynthID, da Google DeepMind, insere marcas de água em imagens, áudio, texto e vídeo gerados nos produtos de IA para consumidores da Google, e a própria empresa descreve-as como impercetíveis para humanos mas detetáveis pela tecnologia dela.
Vale a pena parar aqui um momento. O texto que gerar pode levar consigo um sinal que não consegue ver, colocado pela empresa cujo modelo usou, por imposição de lei europeia.
O que você tem de fazer
Esta é a disposição que a maioria dos artigos sobre o tema salta ou conta mal. Cito-a por inteiro, da versão portuguesa publicada no Jornal Oficial:
"Os responsáveis pela implantação de um sistema de IA que gere ou manipule texto publicado com o objetivo de informar o público sobre questões de interesse público devem revelar que o texto foi artificialmente gerado ou manipulado. Esta obrigação não se aplica se a utilização for autorizada por lei para detetar, prevenir, investigar e reprimir infrações penais ou se os conteúdos gerados por IA tiverem sido objeto de um processo de análise humana ou de controlo editorial e se uma pessoa singular ou coletiva for responsável editorial pela publicação do conteúdo."
Leia a segunda metade outra vez. Se uma pessoa reviu o conteúdo, e se há alguém que assume a responsabilidade editorial pela publicação, o dever de divulgar não se aplica.
Para um artigo de blog, uma página de serviços, uma newsletter ou uma publicação nas redes que alguém editou e aprovou, a análise acaba aqui. E note que há duas condições antes de sequer se chegar à isenção: o texto tem de ser publicado para informar o público, e tem de tratar de questões de interesse público. Uma página com o seu horário não é nem uma coisa nem outra.
O sítio onde é preciso ter cuidado é nos deep fakes. Quando se gera ou manipula imagem, áudio ou vídeo que se assemelha a pessoas, lugares ou acontecimentos reais, o dever de divulgar aplica-se e não há isenção por revisão editorial.
| Situação | De quem é a responsabilidade | Tem de avisar o leitor? |
|---|---|---|
| Artigo escrito com apoio de IA, editado e publicado por si | Sua, como responsável pela implantação | Não, havendo revisão humana e responsável |
| Chatbot no seu site | O prestador concebe, você implanta | Só se não for óbvio que é uma máquina |
| Vídeo sintético de uma pessoa real | Sua, como responsável pela implantação | Sim |
| Fotografia de produto gerada de raiz | Sua, como responsável pela implantação | Não como deep fake, se não retrata nada real |
| Marcação legível por máquina | Do prestador | Não é trabalho seu |
Porque é que a ideia contrária pegou
Duas razões, e nenhuma delas é a lei.
A primeira é que o medo anda mais depressa do que os diplomas. Uma regra com isenção é mais difícil de resumir do que uma regra sem ela, por isso a isenção cai no resumo. Ao terceiro artigo já desapareceu.
A segunda é que "conformidade" vende. Uma obrigação vaga que ninguém leu é um excelente pretexto para vender um serviço.
Preferimos que leia o parágrafo e tire as suas conclusões, e é por isso que ele está aqui citado por inteiro.
O que faríamos no seu lugar
Saber quais das suas ferramentas são prestadores. Se usa um modelo através de uma interface, a obrigação de marcar é de quem o fornece. Vale a pena saber isso, e não vale a pena pagar a ninguém para lho dizer.
Manter a revisão humana a sério. A isenção depende disso. Se ninguém lê o rascunho antes de sair, perdeu a isenção e ganhou um blog pior ao mesmo tempo. É o raro caso em que a resposta legal e a resposta de qualidade apontam para o mesmo lado.
Escrever quem é o responsável. A responsabilidade editorial é de uma pessoa ou de uma empresa, com nome. Na maioria das empresas pequenas é a gerência ou quem trata do marketing. Decidir não custa nada e é o que sustenta a isenção.
Ser honesta com media sintética de pessoas reais. É a parte com risco verdadeiro, e é a parte em que a maioria das empresas nunca mexe.
Não acrescentar avisos que não deve. Pôr "este artigo foi escrito com apoio de IA" numa página onde uma pessoa pensou e editou não é conformidade. É desvalorizar o seu próprio trabalho.
Nada disto é razão para publicar texto de máquina sem edição. A qualidade continua a ser julgada por quem lê, e a IA já substituiu uma parte do trabalho sem substituir quem o assina. A posição legal e a posição de qualidade são conversas diferentes, e passar na primeira não diz nada sobre a segunda.
Perguntas frequentes
Isto aplica-se à minha empresa em Portugal?
Sim. É um regulamento europeu, aplica-se diretamente em todos os Estados-Membros e Portugal não é exceção. Alcança também empresas de fora da União cujo resultado de IA seja usado dentro dela.
O que conta como questão de interesse público?
O regulamento não dá uma lista fechada. O sentido corrente é o de informação e comentário sobre assuntos públicos, e não conteúdo comercial sobre os seus próprios produtos. Se publica sobre matérias genuinamente públicas, procure aconselhamento jurídico e não a opinião de um blog.
Se eu editar muito o texto da IA, continua a ser conteúdo gerado por IA?
Para efeitos do dever de divulgação, a pergunta fica em grande parte respondida pela isenção. A revisão humana e a responsabilidade editorial tiram-no da obrigação, independentemente de quanto do rascunho começou por ser texto de máquina.
Os leitores conseguem perceber que usei IA?
Às vezes, e cada vez menos por causa de como o texto se lê. A marcação é inserida no momento em que o conteúdo é gerado, por isso pode sobreviver a uma edição que enganaria uma pessoa. Trate isso como razão para fazer o trabalho seu de verdade, e não como razão para o disfarçar.
O que acontece se eu falhar?
A fiscalização cabe às autoridades nacionais e as coimas do regulamento são fixadas como percentagem do volume de negócios mundial. A exposição realista de uma empresa pequena que publica conteúdo de marketing revisto é muito baixa, que é precisamente o ponto deste artigo.
Devemos ter uma política interna de IA?
Se produz conteúdo com regularidade, uma nota curta sobre que ferramentas são permitidas, quem revê e quem aprova compensa. Não porque a lei exija um documento, mas porque é assim que se garante que a revisão humana é real e não apenas presumida.
Se quiser ajuda a transformar isso em algo prático para a sua equipa, escreva para hello@saltylavender.com.
Fontes
- Regulamento (UE) 2024/1689 do Parlamento Europeu e do Conselho, artigo 50.º, Jornal Oficial da União Europeia, versão portuguesa: eur-lex.europa.eu
- Google DeepMind, SynthID: deepmind.google